Do aerotrem aos ônibus elétricos

Campos dos Goytacazes tem um fetiche pelo futuro. Mas não aquele futuro prático, de calçadas niveladas e sinais que funcionam. Nós gostamos mesmo é do futuro dos Jetsons!

Do futuro que brilha, que voa e, claro, custa uma fortuna que não temos. Na década passada, o sonho de consumo atendia pelo nome de aeromóvel — ou aerotrem, como ficou conhecido na boca do povo graças a Levy Fidélix.

No ano passado, a bola da vez foram os ônibus elétricos. Entre um e outro, mudaram-se as cifras — AUMENTARAM! — Mas a pegadinha é a mesma: vender uma maquete de Suíça pruma cidade que não sabe tapar um buraco no asfalto.

Na realidade, cidade essa que culpa trabalhadores pelo estado porco de suas ruas.

Para entender essa herança, precisamos dissecar o cadáver do aerotrem. Se você acha que era apenas um trenzinho ligando o Guarus ao Centro, está enganado. O projeto, em sua versão mais megalomaníaca — digo, samaritanesca — falava em impressionantes 31 km de extensão. Mais de R$400 milhões, sendo R$100 milhões destes arcados pela prefeitura, que já arrecadava R$2,4 bilhões por ano. Imagine o cenário: vias elevadas de concreto rasgando a cidade de ponta a ponta. Para que isso saísse do papel, talvez seria necessário um dos maiores processos de desapropriação da história do município.

E a capacidade? Até 900 passageiros por viagem, um número digno de metrô de Tóquio, conseguido apenas se acoplassem diversos vagões daquele modelo gaúcho, que Rosinha visitou pra buscar inspiração. Foi aprovado pela Câmara em 2013 e tinha previsão de conclusão em 2016.


Vale citar que, nesse período, só duas cidades no Brasil adotaram o sonho de Levy: Porto Alegre, com menos de 1km de distância e Guarulhos, com 2,7km. — Aqui eu precisei parar pra rir. Digo, chorar. Seríamos referência mundial, talvez, no modelo. Um patamar inimaginável até pras nossas metrópoles.

Tudo isso numa cidade onde, muitas vezes, o ônibus convencional roda batendo lata. Isso quando não pega fogo…

Mas o mais saboroso dessa história é a fofoca política, aquele ingrediente que nunca falta na planície. Reza a lenda que a ideia original não foi dos Garotinho. Dizem as más línguas que o pai da criança seria Dr. Arnaldo Vianna, que queria simplesmente aproveitar a malha ferroviária já existente, da antiga Leopoldina Railways/Linha do Litoral, para a implantação de um VLT. Na época, Rosinha Garotinho teria criticado a ideia, chamando-a de inviável e faraônica. Anos depois, voilà: a ideia foi comprada, repaginada e apresentada por ela e Anthony Garotinho como a oitava maravilha do mundo, abençoada pelo PAC da Mobilidade.

Opa! PAC da Mobilidade? Que nome familiar… E não é à toa.

Pulamos para 2025 tão repentinamente quanto o fim do projeto do aerotrem.

O governo Wladimir Garotinho traz uma novidade: 106 ônibus elétricos. Ora diziam que esses custariam R$540 milhões, ora que viriam com mais 248 ônibus a diesel menos poluentes. Nem isso souberam explicar. Considerando a segunda opção e que cada um desses belíssimos Hot Wheels custa na faixa de R$2,6 milhões, 51% do valor seria gasto para comprar 30% da “nova frota”. Seriam 354 veículos, frente a uma estimativa de 220 atuais.

Sabendo que, se Campos não fosse aficcionada pela megalomania, poderiam ser comprados entre 500 e 540 Euro 6, modelo a diesel menos poluente. Mais que o dobro da estimativa atual da sofrida frota.

E, claro, os R$540 milhões viriam, também, pelo PAC da Mobilidade.

Diferente do aerotrem, a gente chegou a ver o ônibus elétrico. Ele rodou. Lindo, silencioso, ar-condicionado gelando. O modelo chinês da Higer desfilou por Campos como a nave espacial dos Jetsons voaria por Bedrock, cidade dos Flintstones.

No entanto, o ônibus não era nosso. Ele veio em regime de comodato, um empréstimo onde o bem cedido temporariamente deve retornar ao comodante da MESMA FORMA como foi recebido pelo comodatário.

Mas, ele veio, fez um gracejo por mais que os 30 dias inicialmente acordados e… sumiu. Nunca mais se falou nos 100 ônibus elétricos. Pelo menos não o Governo. Só quem falou foi a oposição, leia-se a ex-vereadora Thamires Rangel.

Talvez porque, pelo que dizem as más línguas, o exemplar traditado teria quebrado em sua última semana em Bedrock — digo, em Campos.

Tanto o aerotrem da mãe quanto os ônibus elétricos do filho são soluções de vitrine. São os frangos na televisão de cachorro, que somos nós.

O aerotrem falhou porque exigia derrubar a cidade, talvez? Nunca saberemos. A verba dele pingou aqui? Tampouco saberemos.

Os ônibus elétricos, pelo visto, vão tomar o mesmo rumo.

Yabba dabba doo!

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