Dores de Macabu: uma história rica, mas escanteada

Pralém do 11º distrito de Campos dos Goytacazes, a freguezia de Nossa Senhora das Dôres de Macabú.

Pralém da falta de transporte, ambulâncias e até mesmo… asfalto, a região dona de uma festa religiosa tradicionalíssima.

Pralém de qualquer motivo — sempre ruim — que a leva a aparecer, raramente, nos jornais, a região que abriga dois quilombos.

 

Como não é surpresa pra quem me acompanha, sou nascido e criado em Dores de Macabu — hoje sem acento, e sem “Nossa Senhora” no nome oficial. O nome se dá em referência à santa, padroeira da região, e ao rio Macabu.

Por sua vez, o nome do rio tem algumas vertentes: talvez, venha de “Macaba’y” na língua geral, termo que significa “rio das macabas”. O curioso é que a espécie é amazônica, não da Mata Atlântica.

Talvez, venha de “mak’a’bium”, também escrita “makaýwa”, ou, simplesmente, macaúba. Essa sim, com ocorrências na região.

Talvez, seja simplesmente um derivado de “macacu”, nome de outro rio próximo.

 

Certo é, quando falamos em Macabu, uma das primeiras coisas que vem à mente é a Fera de Macabu, o rico fazendeiro Mota Coqueiro, condenado à pena de morte por crimes que, supostamente, ele não cometeu. O apelido dele vem do nome da região entre Macaé de Campos, à época chamada Certão do Macabú, onde ele tinha fazenda.

Antes de ser morto por enforcamento, em 1855, Mota Coqueiro teria lançado uma maldição sobre Macaé, dizendo que a cidade “…teria 100 anos de atraso pela injustiça que estava sendo feita a ele“. Na década de 1950, começaram as pesquisas por petróleo na região. Hoje, Macaé é uma cidade das mais imponentes do estado e da região sudeste.

Isso me leva a crer que, por malfunção, bug ou sadismo do destino, ou até — como bom amante de teorias da conspiração — por uma segunda maldição, que talvez ele tenha dito pianinho, o atraso tenha se estendido à região de Dores.

Só uma divagação de quem, em 16 anos que viveu lá, só viu, de novidade, a construção de uma praça e a instalação de quebra-molas na região do Quilombo.

 

De resto, quando eu nasci, o lugar já era parado.

Esquecido? Talvez. Mas acho melhor usar o termo “escanteado”. 

E é aqui que o tema principal deste texto, finalmente, começa.

 

Dores de Macabu tem uma história riquíssima, mas escanteada. E não posso dizer esquecida pois, dentro daquela comunidade, ainda há a preservação dela. Seja a nível macro, com a Festa de N. Sra. das Dores e as cavalgadas, seja a nível micro, com, pelo menos, famílias que ainda carregam os sobrenomes daqueles que ajudaram a escrever a história do local.

Festa da padroeira que se confunde à história do distrito, mas até hoje não reconhecida como patrimônio cultural/imaterial do município. Ao menos, a Igreja de N. Sra. das Dores é tombada…

Ruas sem nome? Em Dores nós temos! Sem asfalto? Também! A maioria é calçada por paralelepípedos. O que, reconheço, faz parte da história do local. Mas também temos diversas ruas, que cresceram desordenadamente, sem delimitação oficial, nome, nem paralelepípedo. No chão de terra — ora barro crequelento, ora lamaçal.

Falando em ruas sem nome, o que mais vemos em nossa cidade são justas homenagens a figuras históricas em suas vias. — Inclusive, fica a sugestão: leiam o(s) livro(s) Gente Que é Nome de Rua, de Waldir Pinto de Carvalho.

 

Nilo Peçanha é uma dessas pessoas. Justamente homenageado com nome de avenida, prédio da Câmara, bustos…

Seria ele o campista mais importante da história? Seria Benta Pereira? Waldir Pereira? Ou José do Patrocínio?

As possibilidades são muitas. Isso porque essas figuras, como muitas outras, têm um peso gigante na construção do que hoje conhecemos como Campos.

Não mais dos Goytacazes, afinal a cidade começou com o genocídio da tribo.

 

Voltando a Dores, ficam algumas perguntas:

A primeira, quem seria o maior macabuense da história? 

A segunda, existiu algum macabuense importante? Ou ninguém conseguiu prosperar fora de sua terra?

E, por último, por que a história de Dores e região nunca foi valorizada pelo poder público?

 

Como sempre fui interessado por história e, mais recentemente, pela história da minha região, posso dizer que tenho algumas dessas respostas. 

Ao longo deste mês, vou apresentar os resultados dessa pesquisa sobre o distrito. E adianto, tem muita coisa interessante.

 

Dores de Macabu, repito, tem uma história rica, mas escanteada.

E é preciso resgatá-la antes que seja perpetuada uma maldição pior que a da Fera de Macabu:

a do esquecimento.

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