Há algumas décadas, se as pedras das ruas de Dores de Macabu pudessem falar, elas recitariam trovas. E, muito provavelmente, seriam versos de um filho ilustre que, apesar de toda sua dedicação e amor à arte, hoje não é mais lembrado.
Durante a pesquisa em jornais e documentos históricos de Dores, me deparei com a figura agigantada de Heraldo Branco Lisbôa.
Nascido no distrito em 1939, ele provou que nossa terra não produz apenas cana, mas também grandes intelectuais. Gente talentosa de verdade.
Muitos saem do interior para nunca mais olhar para trás, mas Heraldo fez diferente. Antes de ganhar o mundo, ele tentou transformar sua aldeia.
Seu nome surge em periódicos do estado do Rio em 1961, com anúncios dos lançamentos de suas trovas “Trovinhas” e “Chispas de Ouro”. Em novembro do mesmo ano, Heraldo fundou o Clube de Poesias de Dores de Macabu — Algo que eu, sinceramente, sequer imaginei que já existiu ali.
Aos 20 e poucos anos, já era considerado um nome consagrado na poesia trovadoresca, vide publicação da revista “Vida Doméstica”, em 1962, que anuncia o lançamento dos sonetos de “Ária Subterrânea”.
Em qualquer das publicações em jornais das mais diferentes cidades do Rio, o nome de Heraldo sempre era impresso ao lado do nome de Dores de Macabu. Muitas vezes, inclusive, tratada erroneamente como cidade.
Pralém de seu ninho, em 1963, venceu o Prêmio Almir Soares, em Campos, e em 1966 foi premiado no aniversário de 120 anos de Rio Bonito..
Não só poeta e trovador, Heraldo foi professor de português e jornalista. Na década de 1970, já vivendo em Niterói, foi correspondente e, posteriormente, Chefe do Departamento de Assuntos Internacionais do “Jornal de Letras”, um dos periódicos culturais mais importantes do país.
Lecionando de 1974 a 1993, também continuou publicando obras densas como “Poemetrias” (1971) e “O Livro da Senha” (1975).
Esse último, sua obra mais conhecida. A única citada nos poucos registros “públicos” dele. Digo públicos porque estão na superfície, fáceis de encontrar. Diferente dos registros em jornais e documentos.
Inclusive, O Livro da Senha é sua única obra, de fato, disponível. Pode ser inclusive comprada pela internet.
Heraldo Branco Lisbôa faleceu em 22 de maio de 1993, no Rio de Janeiro. Longe de Dores, mas levou consigo o lugar onde nasceu e, mais importante, sua essência. Foi respeitado nacionalmente, inclusive, por sua postura ética — não somente pelo talento.
Em tão somente duas trovas — que consegui encontrar, Heraldo assina com um pseudônimo curioso e interessantíssimo: Pracílio das Dores. das Dores, por motivos óbvios. Pracílio, talvez, só ele sabia o porquê.
Esse texto é o segundo de uma série onde iremos — eu e você, leitor — revisitar a história da região que, hoje, infelizmente se encontra sucateada e escanteada.
Um adendo, feito dias após a publicação deste texto. Eis o livro “Ária Subterrânea” e, finalmente, uma foto do Heraldo:


Aproveito para ressaltar: qualquer dos textos pode conter lacunas, erros, incoerências… Inclusive este. Isso porque, mesmo nascido na região, nunca aprendi uma frase sequer das escritas aqui nas escolas que estudei (em Dores), em jornais, revistas, em eventos. Tudo provém de uma pesquisa feita nos últimos anos, dos fatos mais conhecidos a achados-por-acaso, consultando jornais, mapas e livros dos séculos XIX e XX.
Aproveito, então, para fazer alguns pedidos:
– Gostou do texto? Compartilhe!
– É historiador ou conhecedor da história da região e notou algum erro, ou quer colaborar? Por favor, sinta-se à vontade.
Este é um trabalho vivo. A história de Dores está longe de estar fechada.
Pelo contrário, está sendo reescrita agora.


































