“Art. 1º. Fica creada a freguezia de Nossa Senhora das Dôres (de Macabú) no primeiro districto de subdelegacia de polícia da freguezia de Santa Rita da Lagôa de Cima, no município de Campos.
[…]
Dada no palácio do governo da província, aos 2 de outubro de 1857, 36º da Independencia e do Imperio.”
Os trechos acima — que podem ser lidos também nas imagens abaixo — são do decreto nº 964, do dia referido, assinado por Antonio Nicoláo Tolentino, à época presidente da província do Rio de Janeiro. Cargo, hoje, equivalente ao de governador do estado.
Ali, começava oficialmente a história do, hoje, distrito de Dores de Macabu — nome que, até décadas recentes, era assinado com acentos nas sílabas tônicas.
A freguesia — termo dado a povoados formados no entorno de paróquias — até então, era parte da região de mesma classificação, Santa Rita da Lagôa de Cima, hoje distrito de Ibitioca.
Aqui surge o primeiro ponto de parada da nossa série Resgate Histórico de Dores de Macabu: para a formação da freguesia, a região precisava de uma igreja matriz. Foi então que o cidadão Pedro Nolasco Peçanha cedeu, para servir provisoriamente como, a sua capela a N. Sra. das Dores.
Há a chance, também, da região ter sido, por alguns anos, um curato (região de autonomia canônica, mas dependente da freguesia) tendo em vista que os livros religiosos do povoado principiam em 1852. Cinco antes da “elevação”.
Nesse ponto, surgem algumas pontas-soltas:
No decreto, é dito que sua capela serviria como matriz “até que se faça a nova igreja no logar denominado Quilombo”.
É sabido que Quilombo, com Q maiúsculo, é o nome dado à região do quilombo de Lagoa-Fea. Porém, a Paróquia de N. Sra das Dores, no bairro central do distrito, foi “inaugurada” em fevereiro de 1888. A capela existente até hoje no Quilombo é dedicada a N. Sra. da Conceição e tem inscrita na fachada a data de 1936.
Essas dúvidas deixam em aberto um detalhe importante: onde, de fato, é o marco-zero de Dores de Macabu?
De todo modo, a capela de Pedro ficava, sim, no Quilombo. Inclusive, a história começa 14 anos antes. O primeiro registro que se conhece vem de 1843, resgatado pelo Monitor Campista 160 anos depois, como pode ser visto na imagem abaixo. Naquele ano, Nolasco já tinha a capela a N. Sra. das Dores e, muito provavelmente, organizava a tradicional festa à padroeira.

Se o decreto nos deixa dúvidas, ele também nos dá luz a outro detalhe, tão importante quanto: o patriarca histórico da região, Pedro Nolasco Peçanha.
Esse homem, além de devoto a Nossa Senhora das Dores, foi autoridade policial, fazendeiro, dono de várias terras e padre. Pralém disso, o patriarca de Dores era avô de outro importante padre da região.
Isso porque, como é visto nos slides adiante (estão ao final do texto), Pedro é citado em vários provimentos da igreja católica e registros de jornais, a partir de 1849. Já o neto “surge” em 1859, vide slide 5.
Já num registro de 1865 (slide 7), avô e neto aparecem listados como padres, em funções diferentes:
- Padre Pedro Nolasco Peçanha, atuando como Juiz de Paz em Dores — a autoridade civil máxima local;
- Padre Pedro Nolasco Peçanha Neto, listado logo abaixo como o Clérigo oficial da freguesia.
Sendo assim, podemos desenhar uma linha do tempo onde:
O Pedro Nolasco “avô” já aparecia em 1849 como autoridade policial (subdelegado substituto) em Santa Rita.
Anos depois, seu descendente — o Neto, que ora aparece grafado como Netto — assume o protagonismo religioso e econômico. Este foi vigário da freguesia de N. Sra. das Dores entre 1859 (ou antes), até 61. — Diferente do que aponta Marco Polo T. Dutra P. Silva: até 1863.
Em 1865, Neto aparece novamente como vigário em Dores, como supracitado.
A partir de 1868, o Pedro avô não é mais citado em qualquer registro, o que nos leva a crer que ele morreu neste ano, quando há o último registro dos dois “juntos”. Em 70, ele aparece pela única vez como padre e fazendeiro.
Provavelmente após a morte do avô, já em 1871, Neto deixa de usar essa alcunha e “assume” o nome do patriarca.
Teria se mantido como coadjutor da freguesia de N. Sra das Dores de meados de 1860 a meados de 1870. Isso porque, em 1878, foi encomendado vigário da freguesia de São Benedicto da Lagoa de Cima (hoje distrito de Morangaba). Na década seguinte, em 1885, retorna às origens como vigário da matriz de Santa Rita.
Em janeiro de 1890, o último provimento que se tem registro citando o mesmo, o confirma como vigário das freguesias de Santa Rita e São Benedicto, em simultâneo. Sua história se encerra poucos meses depois, em 22 de julho de 1890, com o anúncio de seu falecimento na freguesia de Santa Rita.
Aqui termina a história, por ora, da família Nolasco Peçanha — já Pessanha.
Na pesquisa também surgiram possíveis parentes dos referidos, como Luiz (Antonio) Nolasco Pessanha, primeiro registro datado de 1865, que se consolidou como o fazendeiro após a morte de Pedro avô. Mudou, inclusive, a escrita do sobrenome no mesmo ano do Pedro neto. Estranho é que, em 1890, também vem o seu último registro: o alistamento eleitoral daquele ano.
Quatro dias após a Proclamação da República, Decreto nº 6 do Governo Provisório determinava: “Consideram-se eleitores, para as camaras geraes, provinciaes e municipaes, todos os cidadãos brazileiros, no gozo dos seus direitos civis e politicos, que souberem ler e escrever.” Com isso, no ano seguinte, foi feito o tal alistamento.
O interessante aqui, que pode ser o ponto de partida de uma nova pesquisa é o seguinte:
Luiz (e outros dois Nolascos) viviam no que era tratado como 15º quarteirão do 1º districto da freguezia.
Um deles, José Antonio Francisco Nolasco. Do que se sabe, um foi administrador e guarda do cemitério da freguesia de Dores em 1879, em 1888 assinava junto a Nilo Peçanha e inúmeros filiados, um manifesto do Partido Republicano.
O outro, Antonio Francisco Nolasco. Desse só se sabe que, em 1877, foi aprovado na escola de Dores em exames escolares presididos pelo próprio padre Pedro Nolasco.
Ainda sobre a família, uma carta de leitor ao Monitor Campista, de 23 de julho de 1877, revela o nome de Dona Rita Maria do Espírito Santo, avó do Padre Pedro Nolasco Pessanha (o Neto). Ela havia morrido no mês anterior, na impressionante idade de 110 anos. Só não se sabe se era avó materna ou paterna, esposa ou não do Pedro avô.
Sua longevidade não era caso único: no mesmo mês, as outras duas pessoas mais velhas da freguesia também morreram, eram Manoel José Fortuna (110 anos) e da (referida assim na carta) preta livre Florianna (100 anos).
Aqui finalizo, então, com essa pista para saber, de fato, onde era o reduto dos Nolasco Peçanha.
Ou Pessanha, com dois ésses.
Esse texto é o primeiro de uma série onde iremos — eu e você, leitor — revisitar a história da região que, hoje, infelizmente se encontra sucateada e escanteada.
Aproveito para ressaltar: qualquer dos textos pode conter lacunas, erros, incoerências… Inclusive este. Isso porque, mesmo nascido na região, nunca aprendi uma frase sequer das escritas aqui nas escolas que estudei (em Dores), em jornais, revistas, em eventos. Tudo provém de uma pesquisa feita nos últimos anos, dos fatos mais conhecidos a achados-por-acaso, consultando jornais, mapas e livros dos séculos XIX e XX.
Aproveito, então, para fazer alguns pedidos:
– É morador de Dores e Quilombo e gostou do texto? Compartilhe!
– Conhece alguém que descende de Pedro Nolasco? Por favor, peça para essa pessoa entrar em contato comigo. Será de importante valia para a pesquisa.
– É historiador ou conhecedor da história da região e notou algum erro, ou quer colaborar? Por favor, sinta-se à vontade.
Este é um trabalho vivo. A história de Dores está longe de estar fechada.
Pelo contrário, está sendo reescrita agora.
PARA FINALIZAR:
Com a ajuda da inteligência artificial, elaborei o que poderia ser a linha do tempo definitiva dos citados:
- 1843: Primeiro registro oficial. O fazendeiro Pedro Nolasco Pessanha (grafado com SS) já celebrava a festa de N. Sra. das Dores em sua capela particular em Macabu, 14 anos antes da criação da freguesia. A capela já era um ponto de atração popular.
- 1849: Pedro Nolasco Peçanha aparece como 4º Substituto do Subdelegado na Freguesia de Santa Rita da Lagoa de Cima, inserido na estrutura policial e política local.
- 1853: É o último ano em que ele consta como substituto do subdelegado. A partir daqui, seu foco público muda.
- 1857 (2 de outubro): A fundação. O Decreto nº 964 cria a Freguesia de Nossa Senhora das Dores de Macabu. O documento cita o cidadão Pedro Nolasco Peçanha cedendo sua capela como Matriz provisória.
- 1857: No mesmo ano, Pedro aparece listado também como fazendeiro de açúcar e criação em Quissamã (Freguesia de N. Sra. do Desterro de Quissamã), indicando grande poderio financeiro.
- 1859: Surgimento público do Neto.
- O Neto: Aparece pela primeira vez o Padre Pedro Nolasco Peçanha Neto como Vigário de Dores de Macabu.
- O Avô: Continua listado como fazendeiro de açúcar em Santa Rita e de café em Dores, sem o título de padre nestas listas agrárias.
- 1862: Mudança de função. O Neto não aparece mais como vigário titular (o cargo está com o Pe. Manoel Marques Monteiro), sugerindo um período de transição ou atuação como coadjutor.
- 1865: A prova dos dois padres. O registro mais importante da cronologia.
- O Avô: Aparece explicitamente como Padre Pedro Nolasco Peçanha exercendo o cargo de Juiz de Paz em Dores.
- O Neto: Listado logo abaixo como Clérigo, com o nome Padre Pedro Nolasco Peçanha Neto.
- Sucessão Civil: Surge Luiz (Antonio) Nolasco Peçanha como fazendeiro de açúcar, indicando que a gestão direta das fazendas começou a passar para outro herdeiro (provavelmente irmão do Neto).
- 1867 (junho): O Avô como coadjutor? O jornal O Apóstolo cita a provisão de “Padre Pedro Nolasco Peçanha” (sem Neto) como Coadjutor de Dores. Pela hierarquia e idade, tudo indica ser o avô assumindo uma função auxiliar no fim da vida.
- 1868: O último registro conjunto. Avô e Neto são citados juntos pela última vez num almanaque: o Avô como Juiz de Paz e o Neto como Clérigo.
Após a provável morte do Avô, entre 1868 e 72, o Neto assume o nome principal (perdendo a alcunha), consolida a fortuna e peregrina por outras paróquias até a morte.
- 1870: Padre-fazendeiro. O Neto (ainda assinando assim) é Clérigo e, ao mesmo tempo, listado nominalmente como Fazendeiro de açúcar (Engenho no Guriri) e café.
- 1871: O fim do “Neto”. Último registro oficial onde a alcunha “Neto” é utilizada.
- 1873: Nome único. Provisão para “Padre Pedro Nolasco Peçanha” continuar como coadjutor em Dores. A ausência do “Neto” sugere que o avô já havia falecido, tornando a distinção desnecessária.
- 1878 – 1879: Saída de Dores. O Padre deixa a atuação direta em Dores e assume como Vigário Encomendado da Freguesia de S. Benedito (Morangaba).
- 1881: No centro de Campos. O Padre (agora grafado Pessanha, assim como Luiz) aparece vinculado à Igreja do Carmo, na Freguesia de S. Salvador (Centro), indicando prestígio na diocese.
- 1883: Gestão familiar? Enquanto o padre está em outras paróquias, Luiz Antonio Nolasco Pessanha aparece tocando as fazendas em Dores e Quissamã.
- 1885: Retorno às origens. O Padre Pedro Nolasco Pessanha assume como Vigário da Matriz de Santa Rita, freguesia mãe de Dores de Macabu e berço político do seu avô.
- 1890 (janeiro): Acúmulo de funções. Já no fim da vida, ele rege simultaneamente as freguesias de Santa Rita e S. Benedito.
- 1890 (22 de julho): O falecimento. O jornal A Republica noticia a morte do “Revd. vigario d’alli, padre Pedro Nolasco Pessanha” na freguesia de Santa Rita.
- 1890 (sobre Luiz Antonio): O parente citado anteriormente tem, como último registro público, o alistamento eleitoral daquele ano, um re
A IA também ajudou este leigo a imaginar as possíveis datas de nascimento de cada um. Obviamente, só especulação. Mas espero que possa ajudar:
Pedro Nolasco Peçanha Neto
- Data estimada de nascimento: Entre 1833 e 1835
- Falecimento: 22 de julho de 1890 (aprox. 56 anos).
A lógica matemática: O “pino de segurança” para essa conta é o registro de 1859, onde ele aparece pela primeira vez como Vigário.
- No Direito Canônico da época, a idade mínima para a ordenação sacerdotal era 24 ou 25 anos.
- Se ele já era vigário em 1859, ele não poderia ter nascido depois de 1835.
- Isso significa que ele morreu em 1890 relativamente jovem, na casa dos 55 a 57 anos, o que era uma expectativa de vida comum para a época.
Pedro Nolasco Peçanha (o avô)
- Data estimada de nascimento: Entre 1790 e 1795
- Provável falecimento: Entre 1868 e 1872 (aprox. 75-80 anos).
A lógica geracional: Para ele ter um neto que nasceu em 1834, precisamos voltar duas gerações (aprox. 20 a 25 anos por geração, que era o padrão da época):
- O Neto nasce em ~1834.
- O Pai (filho do patriarca) teria nascido por volta de 1810-1815.
- O Avô (Patriarca), portanto, teria nascido por volta de 1790-1795.
Isso se encaixa com os fatos:
- Em 1843: Ele teria cerca de 50 anos. Idade perfeita para ser um fazendeiro consolidado, com recursos para promover festas com “pompa”.
- Em 1849: Com ~55 anos, assume como Subdelegado, um cargo de respeito para homens maduros.
- Em 1865: Com ~70-75 anos, aparece como Juiz de Paz e Padre.
- Nota Interessante: O fato de ele virar padre no final da vida (aparecendo como padre apenas nos registros de 1865 em diante) sugere fortemente que ele era um viúvo com “vocação tardia”. Era muito comum no Império que patriarcas, após criarem os filhos e enviuvarem, entrassem para o clero, doando parte dos bens (como a capela) para a Igreja.
















































