Já sabemos que as páginas da história de Dores de Macabu foram subitamente arrancadas com o tempo. Mas, com empenho, é possível encontrar um rascunho ou outro, uma ponta de um fio que, ao ser destrinchado — ou desenrolada — muda toda a narrativa. Foi exatamente o que aconteceu quando mergulhei nos registros de Alberto Branco.
Nascido em 22 de maio de 1894, filho do português Albano d’Assumpção Branco e da brasileira Maria Coelho Lacerda, Alberto provou cedo que a pena seria sua grande aliada.
Para se ter ideia, ainda novo, em abril de 1909, publicava o poema “A Aurora” no famoso jornal infantil “O Tico-Tico”. Meses depois, em agosto, faturou o prêmio de 10 mil réis em um concurso da mesma revista.
A trajetória literária, claro, teve seus tropeços. Em 1914, revistas como “Jornal das Moças” e “Fon Fon!” rejeitaram ironicamente seus versos — incluindo um tal “Nocturno” — por “carecerem de metrificação”. Mas o jovem não se calou. No fim daquele mesmo ano, seu nome já aparecia ao lado de lideranças de Dores assinando um telegrama de felicitações ao Senador Nilo Peçanha, que estava por tomar posse como Presidente do Rio de Janeiro pela segunda vez.
Curioso que, junto dele, assinaram Nilo Fernandes Pereira e um tal Dr. Ribeiro do Rosário. Ninguém menos que o cónego Padre Rosário.
Em 1916, se casou com Aída Braga. E foi ali, em Dores, que Alberto criou e dirigiu o “Jornal Pequeno”, entre 1918 e 1919. O único periódico redigido no local, em toda a história.
Aqui surge uma das pontas-soltas mais tristes da nossa pesquisa: o próprio Alberto perdeu a coleção desse jornal anos depois, em São Paulo. O desaparecimento foi considerado um desastre tão grande que, em 1972, Heraldo Lisboa — sim, o mesmo Heraldo da nossa outra coluna — encabeçou uma busca nas páginas do “Jornal de Letras” por qualquer exemplar sobrevivente.
Heraldo também foi o responsável por um movimento de “restabelecimento cultural” da região. Nada inimaginável, sabendo do quão apaixonado ele foi por lá e do quanto ele lutou, justamente, para manter viva a identidade cultural que Dores, um dia, já teve.
Diferente de muitos que ficam apenas no interior, Alberto levou Dores para a capital. Já no Rio de Janeiro, trabalhando no “Correio da Manhã”, ele mostrou sua versatilidade.
No início dos anos 30, publicou a crônica “Os Cajueiros”. Pralém de uma simples descrição, o texto é um mergulho no folclore assombrado de Dores. Ele descreve as árvores como “fakires mysteriosos” e cita centauros, que à noite formavam “espectros e abantesmas hediondos num bailado macabro”. A pura essência das lendas de lobisomens e assombrações de interior sendo lida pelos cariocas.
Pouco depois, em abril de 1933, cravou “Mediocrilandia”, uma crítica dura e atemporal à falsa erudição, que em breve estará disponível completa na minha coluna. Uma crítica escrita há 93 anos, mas que permanece vigente até hoje — talvez ainda mais vigente.
Um detalhe interessantíssimo que a pesquisa revelou é que ele não vivia só de jornalismo. Alberto foi ferroviário da Leopoldina, e em 1952 apareceu em uma lista de colegas aposentados homenageados num banquete. Mesma profissão que consta em seu registro de óbito
Sua base familiar também era sólida. Ele e Aída tiveram oito filhos. Moraram, a partir dos anos 50, no Rio, no bairro de Botafogo, na Rua Teresa Guimarães. Um condomínio muito conhecido, onde viveram muitos artistas.
A veia literária foi passada adiante: em 1939, Alberto Branco Filho, aos 13 anos, repetia o feito do pai e publicava o conto “Mário, o Menino Pobre” também no “O Tico-Tico”.
Em 1966, ao comemorar Bodas de Ouro com Aída, cercado pelos oito filhos — incluindo o jornalista Aloísio e o médico Almir — Alberto continuava na ativa. No mesmo ano, publicou a crítica “A Menina das Rosas” no próprio “Correio da Manhã”, onde, à época, quem trabalhava era o filho, Aloísio Branco, que também foi crítico literário e, por um breve período foi obrigado a assumir o horóscopo, embora mal soubesse seu signo.
Inclusive, Aloísio não foi o último da família na área: Arnaldo Branco, neto de Alberto, segue os passos dos patriarcas. Já trabalhou como roteirista e cartunista para programas como Casseta & Planeta Urgente, Domingão do Faustão, Irmão do Jorel, Oswaldo, Giga Blaster, O Menino Maluquinho e Greg News. Também escreveu para O Globo — assim como o pai.
Já o Almir, médico, também deixou um descendente que passa adiante seu legado: Almir Branco Filho, hoje, é um dos reumatologistas mais importantes do estado.
Voltando ao Alberto, já beirando os 80 anos, em 1971, lançou o premiado livro-reportagem “Belém, Porta e Entrada da Amazônia”, que lhe rendeu até voto de louvor na Assembleia Legislativa do Pará.
Alberto faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1974, prestes a completar 80 anos. Exatos quatro anos depois, a pedido do Padre Rosário, que era vereador, a Câmara de Campos fez justiça à sua memória: o jornalista de Dores virou nome de rua — por motivo desconhecido, não em Dores — no Parque Corrientes. O descerramento da placa foi feito por seu próprio filho, o Alberto que citei acima.
Aqui finalizo a linha do tempo desse gigante. Mas a grande charada de Heraldo Lisboa permanece aberta:
Ainda existe um exemplar daquele mítico Jornal Pequeno de 1918?
Curiosamente, a única foto que há pública de Alberto é esta, da capa, onde ele aparece de perfil. Mais visível está sua esposa, Aída.
Estavam comemorando as supracitadas bodas de ouro na ocasião.

Esse texto é o terceiro de uma série onde iremos — eu e você, leitor — revisitar a história da região que, hoje, infelizmente se encontra sucateada e escanteada.
Aproveito para ressaltar: qualquer dos textos pode conter lacunas, erros, incoerências… Inclusive este. Isso porque, mesmo nascido na região, nunca aprendi uma frase sequer das escritas aqui nas escolas que estudei (em Dores), em jornais, revistas, em eventos. Tudo provém de uma pesquisa feita nos últimos anos, dos fatos mais conhecidos a achados-por-acaso, consultando jornais, mapas e livros dos séculos XIX e XX.
Aproveito, então, para fazer alguns pedidos:
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– É historiador ou conhecedor da história da região e notou algum erro, ou quer colaborar? Por favor, sinta-se à vontade.
Este é um trabalho vivo. A história de Dores está longe de estar fechada.
Pelo contrário, está sendo reescrita agora.










































