25/07/2021 às 20h23min - Atualizada em 25/07/2021 às 20h13min

O sujeito que é cringe, ou é cringe ser sujeito?

Patrick Brito
Em nossa conversa de hoje queremos tocar o que tem sido uma discussão constante nas redes sociais, sobre a geração Z e a geração millenniais, que agora são denominados de cringe. Porém, antes disso cabe aqui fazermos uma referência que melhor explique cada termo citado. A palavra “cringe” vem do vocabulário inglês, usado por lá para denotar as coisas com um tom de comédia, porém no Brasil tem sido usada como referência ao que pode ser cafona, brega. Tal situação denota algo que sempre foi comum em nossas sociedades, que são os conflitos geracionais, neste caso estamos falando da geração denominada como geração Z, os que nasceram entre 1995 a 2010, e a geração denominada de millenniais, os que nasceram entre 1980 a 1995. Temos apontado que as gerações atuais tem vivido cada vez mais uma experiência de imperativo a felicidade, sendo esse medido pelo acesso ao consumo. Ou dito com outras palavras, estamos diante de uma geração que se vê obrigada a ser feliz o tempo todo, e coloca no consumo o caminho para tal, ser feliz é ter abundância na sociedade atual, aonde ter é ser, e ser feliz é ter em grandes quantidades. Continuemos falando um pouco ainda sobre a geração millennials, que são os que nasceram pós anos 80 e antes dos anos 2000. Assim, tal geração vivenciou como nunca antes, tantas mudanças e tão profundas nas interações sociais, com o advento das redes sociais. Autores apontam cada vez mais que somos uma sociedade da auto performance e auto cobrança, que estamos cada vez mais cansados e preocupados com a busca pelo desempenho perfeito, perseguindo o impossível, como uma meta obrigatória. Sendo assim, vemos cada vez mais as academias lotadas com as metas do corpo perfeito, e nunca se tentou tanto evitar o envelhecimento, e talvez por isso ser chamado de cringe seja um choque, pois mesmo com todas as tentativas, tal expressão remete o que não se pode mudar, a saber, que todos somos limitados, principalmente na questão do tempo, envelhecemos e morremos. Em uma sociedade que rechaça a negatividade da vida, e que vende uma completude impossível, apregoando a cada comercial que podemos ter tudo, ser tudo e viver tudo, qualquer sinal de limitação aparece como um inimigo, e tende a ser contestado a todo custo. Todavia nossa questão hoje se faz sobre a geração que denominamos a Z, dos que nasceram após os anos 1995. Lembremos que essa geração se faz em meios as mudanças que temos anunciado aqui, entre elas a do avanço das redes sociais digitais, e dos objetos tecnológicos, sendo neste sentido que, podemos afirmar que tal geração não conhece uma interação social sem a utilização destas redes. Logo, podemos verificar que tais gerações são criadas já com os objetos de sua satisfação, como celulares, tablets, entre outros, são os considerados nativos digitais, pois nasceram imersos num mundo altamente tecnológico, sendo socializados por esses meios. Se as respostas agora são imediatas, se cria uma dificuldade cada vez maior em se esperar qualquer que seja a situação, temos uma geração cada vez mais presa nos objetos de sua satisfação. Neste ponto podemos informar que há uma certa virada no aparecimento dos casos clínicos, onde temos nos deparados com os sujeitos que cada vez mais tem dificuldade de lidar com qualquer renuncia a satisfação, se aproximando de uma clínica de compulsões e adições, a todos os tipos de satisfações produzidas nos capitalismos. Enquanto acompanhamos a geração dos millennais se afogando cada vez mais nos seus imperativos prazerosos, ou dito com outras palavras, tal geração cada vez mais se sente dominada em uma posição de ter prazer o tempo todo, quando o prazer vira uma obrigação. Sobrecarregados pela demanda de prazer, os sujeitos tem muita dificuldade de dizer não ao imperativo da felicidade, e pouco conseguem diferenciar qualquer experiência que possuem, pois estão sempre muito mais perto da ordem do excesso, do que do desejo. Nesta questão temos sujeitos cada vez mais esgotados nas experiências excessivas de prazer, sem conseguir uma outra proposta, afinal, o que fazer quando é justamente do prazer que esgotamos? Não temos uma resposta simples para tal situação, porém podemos ver a cada dia o crescimento das patologias que paralisam o corpo, o paralisam na iminência de diminuir seu contato com o excesso das muitas atividades e suas demandas de prazer. E é neste sentido que podemos verificar o crescimento das depressões e síndromes do pânico, porém não vamos nos aprofundar, o faremos em outro momento. Podemos assim continuar nossa reflexão falando de nossa pequena pergunta no título do texto, que nos remete a questão da geração z e sua posição frente as questões da atualidade, posição essa que se faz em um lugar de extrema dificuldade de assumir um lugar de sujeito. Muitos autores tem remetido que o declínio da moral religiosa como a bússola da sociedade e o discurso do consumo, tem gerado uma crise de legitimidade cada vez mais presente na sociedade. Sendo assim, os pais tem cada vez mais dificuldade de dizer seus "nãos" aos seus filhos, e tais filhos tem cada vez mais dificuldade de lidar com a negatividade da vida. Podemos apontar que tal geração cada vez mais demostra nos consultórios uma dificuldade de renunciar o lugar do que Freud chamou sua “majestade o bebê”. Em outras palavras, sujeitos que não querem ser sujeitos, que não assumem responsabilidades, que ficam sempre numa posição de negação referente as dificuldades da vida e que culpabilizam os outros por suas questões. Para Freud a posição de sua “majestade o bebê”, é o lugar da criança como centro narcísico, em que ela tem que ser amada e agradada pelos pais o tempo todo. Se trata de um lugar de autoritarismo, não como referência paterna, e sim como uma dificuldade de lidar com o não, ou a negatividade da vida. Nos parece que qualquer pessoa que já conheceu uma criança dita mimada pode averiguar o quanto o narcisismo desta criança lhe produz um autoritarismo e a mesma faz com que todos tenham que fazer sua vontade. Os sujeitos atuais da geração Z, são os que tem sempre perto os objetos de sua satisfação, e que por isso, não sabem mais esperar, se frustrar, ou ouvir não, e quando algo não funciona, culpabilizam os outros por isso. Poderíamos usar neste caso a referência de alguns autores para apontar que esta geração se caracteriza por aqueles que não saem da posição de filhos da mãe, e com isso estão presos ao desejo materno. São esses sujeitos que ficam esperando que o outro os coloquem em uma posição de tudo, do seu objeto mais precioso, e que faça toda as suas vontades, e assim sustente uma imagem narcísica de perfeição em uma relação de dependência com esse outro. Logo, tais sujeitos tem dificuldade de sustentar seu próprio desejo, pois sustentar o desejo é aceitar suas limitações, o que, para esta geração, parece cada vez mais uma dificuldade. Tal situação remete sempre há uma negação a posição de ser sujeito e assumir sua posição de faltoso na sociedade. Verifiquemos que esta geração não suporta a frustração, a espera e tem extrema dificuldade de não ser objeto amado, e com isso lidam cada vez menos com a diferença, pois tudo deve ser perfeito. Tal situação vem acompanhada de uma melancolia infantil, pois uma vez que não assumem a posição de sujeitos, não podem conduzir seus desejos de maneira mais firme, o que os deixam sempre melancólicos por estarem a dependência de um outro a colocar como exceção, como especial. Neste ponto, os objetos de satisfação tentam rechaçar a posição de desejante, esmagando esse desejo com as várias satisfações, e não conseguindo lidar com a espera e com a falta, que são as amigas do desejo. Então finalizemos escrevendo que os conflitos geracionais não são novidades, porém cada geração carrega seu sintoma de acordo com sua época, e nesta temos por um lado os que estão se esgotando de tanta demanda de prazer excessivo, e outra que quer continuar como o objeto amado por todos. Por isso, sim é cringe ser sujeito para a geração z, mesmo que para isso se esteja condenado a uma dependência constante, pois para a mesma, ter autonomia é ser cringe, se responsabilizar é ser cringe, ser sujeito é ser cirnge. Ou seja, a geração z nomeia de cringe o que ela enxerga como autônomo na geração anterior, numa tentativa de não ser sujeito, e continuar como objeto, permanecendo em uma posição de ser paparicado (sim essa palavra é cringe) e não renunciar este lugar. . Patrick Brito Psicólogo clinico formado pela UFF, pesquisador pelo viés da psicanálise, tendo desenvolvido estudos sobre o sujeito contemporâneo e seus sintomas, a sociedade do consumo e novos discursos religiosos. Atuante também em áreas de conflito. Antendimentos online e presencial (22) 998551636 pdoisb@gmail.com
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Sandro Figueredo Silva

Sandro Figueredo Silva

Economia, Política e Sociedade

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