O jornalista Sandro Nascimento, do site NaTelinha, usou o Twitter ontem para decretar uma sentença sobre a ida de Dudu Camargo para a Record.
Segundo ele, Dudu é do entretenimento e suas participações no Balanço Geral de SP são um duro golpe na Record.
Até aí, tudo bem. Opinião dele. Eis o detalhe, abro aspas para o final de sua fala: “para atuar no jornalismo, é preciso estudar”.
Ao ter, subentendido, que estudar O QUÊ e O PORQUÊ é um princípio básico antes de se colocar como entendedor de qualquer assunto, a fala de Sandro me remete ao fatídico discurso de que, para ser jornalista, é preciso, como ele, ter formação em Comunicação Social e habilitação em Jornalismo, ser bilíngue ou viciado em sorvete.
Esse discurso, que coloca o diploma acima de tudo, ignora completamente a história da televisão e do jornalismo brasileiros.
Ao tentar diminuir Dudu Camargo exigindo “estudo”, Sandro, sem querer, desqualifica uma legião de gigantes que construíram aquilo que fazemos parte hoje.
Se o problema é falta de canudo, a lista de “inaptos” seria curiosa:
Começo por Sikêra Jr, que saiu do rádio e virou fenômeno nacional. Repetiu o sétimo ano sete vezes.
Datena, que se consolidou como um dos principais nomes tanto do jornalismo policial, quanto do jornalismo esportivo, também aprendeu na rua.
Caso Sikêra e Datena não sejam referências do que, para muitos, é o verdadeiro jornalismo: o da bancada, de terno e gravata, vamos além.
Boris Casoy foi o primeiro âncora a sair do TP e opinar sobre as reportagens que exibia no TJ Brasil, passou a vida lutando contra a obrigatoriedade do diploma — que ele mesmo não tinha.
Dos NOSSOS deuses, daqueles que são dignos de estarem em um panteão de heróis do jornalismo brasileiro, muitos nem pisariam numa redação, segundo essa tese:
Léo Batista, que criou a linguagem do esporte na TV e narrou os principais acontecimentos da história, âncora do JN por anos, nunca pisou numa faculdade de comunicação.
Cid Moreira, a voz do JN e de Deus, era contador e locutor. Sua técnica não veio de ensino, era dom.
Marcelo Rezende foi hippie aos 16 anos. Estudou mecânica. Entrou no Jornal dos Sports por acaso. O mesmo Marcelo reinventou a crônica policial na TV, da reportagem da favela naval ao Cidade Alerta.
A mente mais brilhante e rápida que nós tivemos na NOSSA área, Ricardo Boechat, não tinha canudo nem ensino médio completo. Ainda assim, sua capacidade de improviso humilhava qualquer manual de redação e poderia facilmente ser inspiração para personagens complexos como Will McAvoy. “El Genio”, até no nome.
Finalizo com Roberto Marinho.
O homem que construiu o império onde a maioria dos jornalistas — inclusive os que criticam a falta de diploma — sonha trabalhar, não cursou jornalismo.
Para atuar no jornalismo, não é preciso vestir uma beca,
nem tirar foto com um canudo,
tampouco de um diploma emoldurado na parede.
Para atuar no jornalismo, é preciso CORAGEM, VONTADE e TALENTO.
Nada disso é aprendido sentado numa carteira.
Notas:
Poderia ter citado vários outros nomes gigantes da área que não tiveram um diploma de jornalista. A lista é imensa e tem muitos monstros sagrados.
Sandro é um ótimo jornalista — quando se atem à sua área: bastidores da TV.
Diploma é motivo de orgulho e quem lutou pra conseguir o seu merece o dobro de palmas daquele que nunca tentou. Já aquele que, sem um diploma, alcançou o topo (ou perto disso), merece o triplo.

































