Em tudo que offerece graus, há mediocridade; na escala da intelligencia humana, ella representa o claro-escuro entre o talento e a estultícia. A vulgaridade é o brazão nobiliarchico dos homens orgulhosos de sua mediocridade.
JOSÉ INGENIEROS
Acrescenta o filósofo, falando dos medíocres: “Ignoram que o homem vale por seu saber; negam que a cultura é a mais profunda da virtude. Não procuram estudar; suspeitam, porventura, a esterilidade do esforço, como essas mulas que, pelo costume de marchar a passo, perderam a faculdade do galope. Sua incapacidade de meditar acaba convencendo-os de que não há problemas difíceis, e qualquer reflexão parece-lhes um sarcasmo; preferem confiar em sua ignorância, para adivinhar. Basta que um preconceito seja inverossímil, para que o aceitem e o difundam; quando julgam ter errado, podemos jurar que cometeram a imprudência de pensar. A leitura produz-lhes efeitos de envenenamentos. Suas pupilas deslizam frivolamente sobre centões absurdos; gostam dos mais superficiais, desses em que um espírito claro nada poderia aprender, embora sejam bastante profundos para empantanar um torpe. Engolem sem digerir, até a indigestão mental; ignoram que o homem não vive do que engole, senão do que assimila. O atascamento pode convertê-los em eruditos, e a repetição pode dar-lhes hábitos de ruminantes. Mas, acumular dados não é aprender; tragar não é digerir. A mais intrépida paciência não transforma um rotineiro em pensador; é preciso saber amar e sentir a verdade. As noções mal digeridas só servem para atolar o entendimento”.
Mas disso não querem saber os medíocres empavonados que, quando escrevem, se arvoram em cientistas enveredando logo pelo caminho da arqueologia e da antropologia. E lá vem o infalível machado de sílex, o troglodita, teoria do evolucionismo, o homem de Neanderthal, etc. Estacam, tomam um pouco de fôlego, seguem o rumo da paleontologia e citam Cuvier arrastando os indivíduos pré-históricos: os mamutes, os megatérios, os dinossauros, os plesiossauros, os mastodontes. Falam, em seguida, de teologia. E quem quiser que aguente com a lei do Karma, com o Astral Superior em mistura confusa com os Vivekanandas, os Ramacharacas, os Prentice Mulford e Krishnamurti.
Passam como gatos sobre brasas pelo vedismo, a religião dos hindus com Brahma. Vismu e Civá, a trindade indiana — Trimurti. Fazem ligeiras alusões a alguns trechos extraídos de revistas a respeito dos Puranas e dos Sutras.
E isso é o suficiente para que os tolos exclamem, entusiasmados: “É um “bicho” para conhecer teosofia!” Não raras vezes comparam Cristo a Buda, a Manu ou a Confúcio. Embora nunca tenham manuseado um compêndio de filosofia, sob qualquer pretexto, enfileiram Heráclito, Anaxágoras, Praxíteles, Aristóteles, Platão, Descartes, Leibnitz e outros.
Forçam muitas vezes o assunto para encaixar à “Suma de São Tomás” a “dialética de Sócrates”, um “criticismo de Kant”, um “determinismo psíquico”, “transcendentalismo”, “silogismo” metafísica… todos esses “materiais” foram colhidos de trechos de artigos de jornais. De outro modo seria impossível conseguir o “stock” de frases feitas; nunca passou por suas mãos um só livro dos filósofos citados.
Entretanto, os que desconhecem esses processos, dão-lhes, logo uma auréola de gênios; para os simplórios, são os medíocres, e mesmo os abaixo de medíocres, verdadeiros polígrafos, indivíduos de cultura sólida, eruditos, enciclopédias vivas!…
Nem todos os maus críticos que escrevem com assiduidade leem muito. E, quando leem é quase sempre com a velocidade mínima de cento e vinte quilômetros à hora. Daí o tornar-se comum trocarem Malherbe por Malesherbes e atribuírem uma frase de Pelletan a Edmond Rostand, quando não cometem maiores disparates.
Quem conhece a “fonte de inspiração” de tais “escritores”, sabe perfeitamente que tudo o que eles “produziram” não passa de decalque ou pastiche.
Vem a propósito repetir o que disse Epaminondas Martins, referindo-se à “enxurrada” de livros que apareceu após a rebelião paulista: “hoje ninguém dispõe de tempo para estudar: estão todos ocupados, escrevendo!…”
Eis aqui como se fazem celebridades nas mediocracias: óculos, barba a Nazareno, um fraque ensebado, algumas frases de Renan e de Voltaire, um copo de cachaça e teremos um filósofo; citar superficialmente as teorias de Laplace, Flammarion, Copérnico, Galileu, o anel de Saturno, Ursas Maior e Menor, Via Láctea, cometa de Halley, aurora boreal e surgirá um astrônomo; como César, Napoleão, Nero, Alexandre Magno, espada de Dâmocles, cavalo de Calígula e mais alguns “ingredientes” faremos um “profundo conhecedor de História Universal”. Troca de insultos, ameaças de bofetadas, vômitos de bílis, linguagem difamatória e estará feito um intrépido polemista.
Se alguém ousa mostrar-lhes as gafes ou erros gramaticais, a resposta é invariavelmente esta: “Você não sabe que sou um espírito emancipado? Não me submeto a escolas nem a dogmatismos. Essa história de português é para os trouxas ou para esses fósseis que se chamaram Bernardes, Vieira, Gil Vicente e grande corja. Sou nacionalista até a medula: só falo e escrevo o idioma brasílico”.
Há os que leram Nietzsche mas não o entenderam e, trepados sobre um pedestal construído de lama e monte de esterco, querem pontificar, convencidos de que já atingiram o topo da montanha de onde falava Zaratustra. É que tais “doutrinadores”, pelo hábito dos prostíbulos e das leituras obscenas, julgam que convento é bordel e confundem monte com monte de lixo!
A vulgaridade até certo ponto é “gozada”, e inofensiva. Mas quando descamba para o lado da maledicência e da calúnia, torna-se perigosa. Demos mais uma vez a palavra a Ingenieros: “Os medíocres detestam os que não podem igualar, como se eles, pelo fato de existirem, os ofendessem. Sem asas para se elevarem até eles, decidem rebaixá-los; a exiguidade do próprio valor os induz a roer o mérito alheio. Cravam seus dentes em toda reputação que os humilha, sem suspeitarem que nunca a conduta humana pode ser mais vil; basta este traço para diferenciar o domesticado do digno, o ignorante do sábio o hipócrita do virtuoso, o vilão do gentil-homem. Os lacaios podem focinhar na lama; os homens excelentes não sabem envenenar a vida alheia”.
Nenhuma cena alegórica possui eloquência mais profunda do que o quadro de Sandro Botticelli. “A Calúnia” convida a meditar em doloroso recolhimento; em toda a Galeria dos Ofícios, parece que ressoam as palavras que o artista — não duvidemos disto — quis pôr nos lábios da Verdade, para consolo da vítima: em seu ressentimento está a medida do seu mérito…
A Inocência já, no centro do quadro intimidada sob o gesto infame da Calúnia. A Inveja a precede; o Engano e a Hipocrisia a acompanham. Todas as paixões vis e traidoras reúnem o seu esforço implacável, para o triunfo do mal. O Arrependimento olha de soslaio, na direção do extremo oposto, onde está, como sempre, só a nua Verdade; contrastando com o gesto selvagem de suas inimigas, ela levanta seu índice ao céu, num apelo tranquilo à justiça divina. E, enquanto a vítima junta suas mãos e as estende a ela, em uma súplica infinita e comovedora, o juiz Midas inclina suas vastas orelhas à Ignorância e à Suspeita”.
O maledicente diz, distraidamente, todo o mal de que não está seguro, e cala, com prudência, todo o bem que sabe.
Muitas vezes ataca para ter a satisfação de ver o seu nome em evidência. E é com avidez que abre os jornais procurando a réplica que lhe daria notoriedade. Porém o silêncio do adversário lhes traz uma grande desilusão; sua indiferença o esmaga.
Algumas vezes supõe que o tomaram em consideração e que a sua presença foi advertida; sonha que citaram o seu nome, aludido, refutado, injuriado. Mas tudo é apenas um sonho; deve resignar-se a invejar na penumbra, da qual não consegue sair.
“Os homens superiores podem imortalizar, com uma palavra, os seus lacaios ou os seus capangas. É preciso evitar essa palavra; de muitos maus críticos somente temos notícia porque algum gênio os honrou com o seu pontapé”.
Se eles me ouvissem eu aconselharia a certos “doutrinadores” que brotam por toda a parte e aos meninos prodígios a que lessem “El Hombre Mediocre” de Ingenieros e “O Culto da Incompetência”, de Emilio Faguet. E, talvez, com a leitura dessas obras, que são um forte libelo contra a mediocracia, esses enfatuados se convencessem de que “são menos do que nada, valores negativos, sombras”…
Mas, para que insistir?
Somos uma nação de 29% de analfabetos funcionais. 76% de analfabetos digitais. Os restantes, — com raras exceções — não têm tempo para estudar:
estão todos muito atarefados…
rolando reels de filosofia,
ou escrevendo críticas para a internet…
O texto acima é uma adaptação de “MEDIOCRILANDIA”, publicado no “CORREIO DA MANHÔ pelo importante jornalista, nascido em Dores de Macabu, Alberto D’Assumpção Branco. Datado de 16/04/1933.




























