Artigo de Opinião
Nos últimos anos, o Brasil tem testemunhado um fenômeno perigoso: a banalização do sagrado em nome da política. Homens e mulheres que ocupam cargos públicos — ou almejam ocupá-los — usam com frequência o “nome de Deus” como escudo para seus atos. Transformam a fé em palanque, a religião em capital político e a espiritualidade em propaganda enganosa.
Não é de hoje que vemos políticos se vitimizando diante da opinião pública, como se fossem perseguidos por forças obscuras apenas porque respondem a investigações ou têm sua conduta questionada. Mas o que mais assusta é a forma como essa vitimização se mistura ao discurso religioso. De dentro de templos ou em discursos televisionados, agradecem a Deus pelas “vitórias” conquistadas — vitórias que, muitas vezes, não vieram da fé, mas do escoamento de dinheiro público, do conchavo político e da compra de consciências.
Essa prática beira o cinismo. O mesmo recurso que deveria ser voltado à saúde, à educação e ao bem-estar da população, é desviado, e, ao final, os responsáveis ainda erguem as mãos aos céus para agradecer. Atribuem ao divino aquilo que é produto de mesquinhez humana, como se Deus fosse cúmplice da corrupção e da injustiça. O mais cruel é que, para muitos fiéis que acompanham esses discursos, a mensagem soa verdadeira, pois vem revestida de linguagem religiosa.
É preciso coragem para dizer: não, Deus não é sócio de políticos corruptos. Não é Ele quem sustenta esquemas, quem alimenta vaidades ou quem legitima práticas que destroem a ética pública. Usar Seu nome em vão para justificar desmandos é não apenas um pecado espiritual, mas também um atentado contra a democracia e contra a inteligência do povo.
A fé deveria ser lugar de encontro com a verdade, de fortalecimento da dignidade humana e de prática da justiça. O que vemos, porém, é sua manipulação como moeda de troca, como se fosse possível comprar legitimidade moral com meia dúzia de frases ensaiadas em cultos ou eventos religiosos.
No fim, resta o alerta: agradecer a Deus por atos mesquinhos é de uma arrogância tamanha que nem o diabo aceitaria tal parceria. Porque até ele, em sua essência simbólica, representa a mentira escancarada. Já os falsos profetas da política preferem a mentira travestida de santidade.
Que a sociedade desperte. Que os cidadãos aprendam a distinguir a fé sincera da fé manipulada. E que jamais aceitem que o nome de Deus seja transformado em cortina de fumaça para encobrir a corrupção, o abuso de poder e o desprezo pelo bem comum.





























