Há algo profundamente revelador quando uma escola de samba decide que sua melhor aposta artística é celebrar, em pleno ano eleitoral, o governante em exercício. A Acadêmicos de Niterói aparentemente acreditou que transformar Luiz Inácio Lula da Silva em protagonista de um desfile seria interpretado como ousadia cultural. O resultado foi interpretado como outra coisa. Uma reverência excessivamente conveniente (ASSISTA AO VÍDEO AQUI).
O desfile na Marquês de Sapucaí apresentou uma sequência de imagens cuidadosamente alinhadas com a construção simbólica do poder. A presença alegórica de figuras como Alexandre de Moraes, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro transformou a avenida em algo mais próximo de um teatro político do que de uma competição artística. A pergunta que ficou foi desconfortavelmente simples. Quem exatamente era o público alvo.
O Tribunal Superior Eleitoral evitou impedir o desfile, citando o risco de censura prévia. Uma decisão tecnicamente compreensível, mas que expôs um paradoxo constrangedor. O Estado protegeu o direito de uma manifestação que, para muitos observadores, parecia cuidadosamente moldada para beneficiar simbolicamente o próprio poder estatal. A legalidade formal foi preservada. A aparência institucional, nem tanto.
O fracasso técnico agravou ainda mais a situação. Alegorias presas, dispersão desorganizada e impacto negativo sobre a Imperatriz Leopoldinense criaram uma imagem devastadora. Não apenas de despreparo logístico, mas de prioridades invertidas. Parecia haver mais zelo na mensagem política do que na execução artística. E jurados, felizmente, ainda avaliam execução.
A ironia mais cruel é que o desfile conseguiu exatamente o oposto do que parecia buscar. Em vez de transmitir força, transmitiu dependência simbólica. Em vez de demonstrar grandeza cultural, sugeriu submissão narrativa. Em vez de elevar o homenageado, expôs o constrangimento de uma homenagem que soou menos como reconhecimento espontâneo e mais como alinhamento calculado.
Não é preciso afirmar irregularidade para reconhecer o problema. Basta observar o contexto. Uma escola recém chegada ao Grupo Especial decide dedicar seu desfile a um presidente em exercício, em ano eleitoral, com recursos públicos envolvidos no financiamento do carnaval, e acredita que ninguém perceberá a dimensão simbólica dessa escolha. A ingenuidade seria comovente, se não fosse tão improvável.
O rebaixamento foi mais do que um resultado técnico. Foi um veredito simbólico. A Sapucaí, com toda sua história de irreverência e independência, rejeitou o que parecia excessivamente alinhado ao poder. E fez isso da maneira mais humilhante possível. Não com discursos, não com protestos, mas com notas.
No fim, ficou uma lição que talvez incomode mais do que qualquer crítica. O poder pode influenciar narrativas, mobilizar estruturas e ocupar espaços simbólicos. Mas não consegue obrigar o respeito. E naquela noite, diante de milhões de olhos atentos, o respeito não apareceu. O constrangimento, sim. O resultado, está aí. Fica a lição para as futuras apresentações. A sociedade evoluiu e está mais atenta.
Notícias do site: Campos 360 News






























