Na política brasileira, sempre há espaço para uma novidade. Às vezes é um projeto inovador. Em outras ocasiões é apenas mais uma licença para tratar de “assuntos de caráter particular”. Foi exatamente essa justificativa apresentada pelo deputado estadual Rodrigo Bacellar, do União Brasil, ao solicitar novo afastamento da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a Alerj, no município do Rio de Janeiro, capital do estado do Rio de Janeiro.
O período do afastamento vai de 10 a 12 de março de 2026. Três dias que, somados aos pedidos anteriores, elevam para 28 o número de dias longe das atividades parlamentares. Uma marca curiosa para quem ocupa um mandato público cuja essência, ao menos em teoria, deveria ser justamente o exercício da função pública.
No documento encaminhado ao primeiro vice presidente da Alerj, o deputado Guilherme Delaroli, do Partido Liberal, que exerce interinamente a presidência da Casa, Bacellar pede que eventuais dias de sessões deliberativas sejam descontados em folha. Um gesto que, visto de longe, pode até parecer zelo com o dinheiro público. De perto, porém, levanta outra reflexão. Afinal, se o cargo exige presença e atuação política, talvez o problema não seja apenas a folha de pagamento.
O detalhe mais curioso desse enredo institucional é que o regimento permite que deputados se afastem por até 120 dias. Ou seja, há ainda uma generosa margem legal para tratar de muitos outros “assuntos de caráter particular”. Em tempos em que hospitais públicos enfrentam filas e escolas carecem de estrutura, é reconfortante saber que o regimento parlamentar é extremamente sensível às necessidades pessoais de seus representantes.
Tudo isso ocorre enquanto novas denúncias ganham espaço no noticiário. A Polícia Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal um relatório de 188 páginas apontando suspeitas de ligação de Rodrigo Bacellar com o núcleo político do Comando Vermelho. O documento também menciona o ex deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias. Ambos negam irregularidades, mas o simples fato de um relatório desse porte existir já seria motivo suficiente para exigir máxima transparência.
O resultado desse cenário é um constrangimento institucional que vai muito além de um simples pedido de licença. Quando um parlamentar investigado acumula afastamentos e justifica tudo com assuntos privados, a mensagem que chega à sociedade é devastadora. A política, que deveria ser instrumento de transformação social, passa a parecer um clube restrito onde o interesse público entra apenas quando sobra espaço entre compromissos particulares.
Notícias do site: Campos 360 News





























