Lembram quando, em dezembro, recorri nesta coluna ao clássico bordão do Quico para ilustrar como, na verdade, os nossos extremos são espelhos?
A política — ou melhor: Santa Igreja Nada-Ortodoxa-Partidária — está repleta de Quicos, de diferentes lados, apontando o dedo e gritando “gentalha” para quem ousasse pensar diferente.
— “Quicos” em todos os sentidos:
Mocorongos…
Cabeças de bagre…
Almofadinhas…
Verdadeiros fígados, como os mexicanos chamam aquele tipinho insuportável, babaca… —
Eu achei que a reflexão pararia por aí. Mas a realidade do Brasil, meus caros, parece só piorar.
Se antes eu falava sobre o cancelamento e o boicote, hoje eu preciso falar sobre o nível de cegueira e fanatismo que tomou conta do pátio da nossa vila.
Olhemos bem para esses dois Quicos da capa.
De um lado, temos a direita cega, o nosso Quico de roupinha verde e amarela.
Na ânsia de provar lealdade a sabe-se-lá-quem, vimos marmanjos bebendo até detergente… O caso Ypê é o suprassumo do delírio. No auge da histeria, os militansos chegaram ao ponto de tratar marca de sabão como medalha de patriotismo.
Tudo isso pra provar um ponto que, fazendo muita força, entende-se ser a defesa de uma marca que, segundo a ANVISA, fabricou, erroneamente, um lote de produtos impróprios para uso.
Do outro lado, não pensem que a situação é melhor…
Temos o Quico de roupinha vermelha, a esquerda, campeã no quesito malabarismo argumentativo.
Prestem atenção ao cenário: o governo — leia-se Papai Lula — cria a famigerada “taxa das blusinhas”, entochando imposto nos nossos… bolsos… ao fazer uma simples compra online.
Quase dois anos após o estrago feito, em ano eleitoral, com popularidade arranhada e queda nas pesquisas, ensaia-se um recuo, uma manobra de marketing ou um veto parcial do imposto que ele mesmo criou.
E o que a militância faz?
Solta fogos!
Comemoram e idolatram o presidente Lula por “salvar” o povo de uma decisão que ele e sua própria base governista enfiaram goela abaixo da população.
O fã-clube agradece chorando de emoção ao incendiário por jogar um copo de água nas próprias cinzas.
O que essas duas classes de Quicos têm em comum? A recusa birrenta em crescer e assumir que seus ídolos erram. Ambas batem palmas para o absurdo, desde que o absurdo vista a cor da SUA camisa.
Enquanto esses dois grupos continuarem brigando no pátio, com as bochechas infladas de razão e as cabeças cheias de vento, esperando que suas Donas Florindas venham os afagar, o país real continua pagando a conta.
É duro admitir, mas ao nos olharmos no espelho, o reflexo não mente…
no fim, somos todos a mesma gentalha.


























