O título desta coluna pode soar como uma heresia para os que se acham sabedores-de-televisão, mas quem realmente vive nesse ambiente vai entender o ponto deste texto.
Quando digo que a televisão precisa de mais Dudus Camargos, não me refiro às polêmicas de bastidores ou aos julgamentos morais que cercam sua trajetória.
Me refiro, basicamente, à falta de um ingrediente que está se tornando escasso nos estúdios modernos: a paixão visceral pelo que faz.
Vivemos uma era de apresentadores que parecem “funcionários públicos” da própria imagem. São profissionais impecáveis: seguem todo o roteiro que recebem, mas que transmitem a sensação de que poderiam estar lendo a previsão do tempo ou uma bula de remédio com a mesma apatia.
Falta o brilho nos olhos de quem cresceu sonhando em cruzar o corredor de uma emissora. Dudu, por outro lado, exala esse pertencimento. Ele é um bicho de televisão no sentido mais literal da expressão.
A espontaneidade dele, muitas vezes rotulada como fora do tom, é o reflexo de alguém que não apenas trabalha na TV, mas que a ama profundamente. Ele se doa ao espetáculo sem as amarras do “o que vão pensar de mim”.
Existe nele uma urgência em entreter, uma necessidade quase orgânica de prender a atenção do espectador — quase como a necessidade que Bryan Cranston tem em aparecer de cueca em qualquer série que participa —. É uma exposição genuína, que quebra a monotonia da programação atual.
Dudu Camargo é, acima de tudo, um eterno aprendiz de um mestre que entendia o povo como ninguém. Sua reverência a Silvio Santos não é uma mimese vazia, mas a manutenção de um legado de comunicação popular que está morrendo.
Ele entende que a TV aberta é, e deve continuar sendo, algo vivo, passional e, por que não, caótico. Ele conhece os mecanismos, as engrenagens e, principalmente, respeita e perpetua o legado de quem veio antes dele.
Mas, claro, Dudu também sabe ser o cara polido, engravatado que fala sério. Afinal, é apresentador de dois telejornais na Record. A emissora do jornalismo.
Aí está o detalhe: ele aprendeu a ser assim. Ele entendeu que aquela emissora pedia outra postura. Mas manteve sua essência.
Mas, acima do PROFISSIONAL, Dudu é uma PESSOA que faz falta na TV hoje.
Quando o Deus da TV brasileira lhe confiou a responsabilidade de ser o âncora de telejornal mais novo da história, aos 18 anos, um fardo caiu em suas costas e o acompanhou por nove longos anos.
Criticado pela suposta falta de experiência, por não ser formado jornalista e, principalmente, pela dita espontaneidade, passou por inúmeras humilhações e falsas acusações, que lhe renderam até personagens-paródias. Mesmo com recusas, veio um reinício no que, para os pseudosabedores-de-televisão, seria o fundo do poço. Não para quem ama o seu trabalho.
Dudu soube receber críticas, sofrer e relevar ataques. Até que em 2025, veio a redenção e o fim daquele fardo: como participante de um reality, ele não só quebrou recordes em provas, como também foi diretor da sua própria história e de todos à sua volta.
Tudo girou em torno dele. E pela primeira vez, positivamente.
Sonho,
coragem,
cara-de-pau, por que não?
Espontaneidade,
inspiração,
objetivos claros,
resiliência,
paciência
e fé.
Se a televisão tivesse, hoje, mais pessoas com pelo menos duas dessas características, ela não seria tão enfadonha.
Precisamos de mais gente que sinta o frio na barriga toda vez que entra no estúdio. Precisamos de comunicadores que não tenham medo de ser humanos, simplesmente eles mesmos, sem o filtro opressor do politicamente-correto-estético.
A televisão brasileira precisa reencontrar sua alma, e essa alma só sobrevive através de quem respira esse ar por ESCOLHA e por AMOR.
Pralém da VOCAÇÃO, talvez quase uma DEVOÇÃO.
Não apenas por contrato.



























