A ironia é, sem dúvida, a roteirista mais cruel do Brasil.
O filme O Azarão, que promete ser a grande epopeia heroica sobre a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência — estrelada por Jim Caviezel e idealizada por Mário Frias, aquele —, acabou de ganhar um spinoff muito mais fascinante.
E o protagonista dessa tragidramédia é… pasmem… Flávio Bolsonaro.
E o nome? Potro de Tróia!
O que estamos assistindo nos últimos dias não é apenas um escândalo político às vésperas da eleição de 2026. É uma verdadeira masterclass — diferente do roteiro vazado do filme — de como NÃO fazer gerenciamento de crise — ou seja, se entregar.
Acompanhem comigo a evolução da “verdade” do Senador e pré-candidato à Presidência em um intervalo de poucos dias, numa escalada digna de esquete humorístico:
- Ato 1 – O escândalo do Banco Master explode e o banqueiro Daniel Vorcaro é preso tentando fugir do país. Flávio e a base correm para emplacar a narrativa: “O Banco Master é do Lula!“.
- Ato 2 – O nome do Senador é ligado a Vorcaro num vazamento de áudio cobrando verba mais-que-milionária para o filme do pai. A resposta imediata: “Não conheço esse cara, nunca me encontrei com ele.“
- Ato 3 – A defesa muda o tom: “É mentira! Esse áudio não é meu!“
- Ato 4 – O tom muda… “Tá, talvez eu tenha conversado com ele. Mas era só sobre o filme.“
- Ato 5 – A imprensa revela que Vorcaro bancou mais de 90% do orçamento (cerca de R$60 milhões). “É dinheiro privado, gente! Não tem nada de ilícito.“
- Ato 6 – Prevendo o pior, Flávio tenta estancar a sangria avisando a própria tropa: “Olha, podem sair mais vídeos e áudios meus com ele.“
- Ato 7 – A confissão final: “Eu realmente me encontrei com o Vorcaro… depois que ele foi PRESO.“
Nesse ponto eu nem sei o que escrever…
O homem que quer ser presidente da República para “honrar o legado do pai”, que posa de novo-baluarte-antissistema, foi flagrado no mais puro suco do sistema brasileiro: bajulando um banqueiro fraudador no WhatsApp para arrancar dezenas de milhões de reais.
E, pior, visitando o “irmãozão” na cadeia para tratar de patrocínio de cinema. Ou, no ápice da burrice, pra dizer que “tava tudo acabado”… Irônico.
E quem ousou apontar o óbvio diante desse desastre, pintando um alvo gigante na própria testa?
Romeu Zema.
O também pré-candidato à Presidência fez o mínimo que se espera de alguém com racionalidade: não passou pano.
“Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil.”
Qual foi a recompensa de Zema por falar a verdade? Tomou porrada da própria direita. Ou melhor: dos bolsonaristas. Foi chamado de traidor para baixo.
Depois, a coisa escalou. Quando o Flávio admitiu publicamente que foi visitar o Vorcaro depois que o banqueiro já estava preso, Zema deu uma entrevista coletiva subindo o tom e chamando a situação de traição ao NOVO:
“Ninguém do Novo foi avisado que ele tinha contato com Vorcaro. Todos nós do Novo supúnhamos que isso não existia. Se alguém foi traído nessa história, foi o Partido Novo. (…) Me parece que assombração sabe pra quem aparecer, e pra mim não apareceu, porque a minha postura sempre foi de combater a corrupção, de não aceitar nada ilegal.”
Vocês lembram da história de que “no fim, somos todos a mesma gentalha“? Lembram dos nossos “Quicos verde-amarelos”? Pois bem. O Quico subiu de nível.
Os mesmos marmanjos que idolatram políticos como seres infalíveis agora fazem um malabarismo-argumentativo-olímpico para explicar que pegar dinheiro de banqueiro preso é aceitável e ético, desde que seja para um filme “patriota”.
Atacam Zema porque, na cabeça do fanático, a lealdade à PESSOA está acima da lealdade aos FATOS e aos seus PRINCÍPIOS.
Agora, o próprio PL — que nunca foi flor que se cheire — considera desistir de Flávio ao Planalto.
O filme, que pralém da marquetagem pré-eleição, poderia ajudar de alguma forma a imagem do Jair, agora está mais manchado que o Lulinha quando trabalhava limpando estrume de elefante
E quem ousa criticar essa relação entre Flávio e Vorcaro é apedrejado.
No fim, o 01 se mostrou um belo potro de tróia…



























