O Brasil vive dias decisivos. O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro carrega consigo não apenas o destino de um homem público, mas um teste crucial para a maturidade das nossas instituições. A decisão que sairá hoje, qualquer que seja, será imediatamente alvo de narrativas contraditórias e apaixonadas — mais uma vez revelando como parte da sociedade prefere a idolatria ao senso de justiça.
Se Bolsonaro for condenado, mesmo diante de provas robustas, já é previsível o coro dos que gritarão “injustiça”, “perseguição” e “ditadura do judiciário”. A lógica é simples e perversa: não importa o que ele fez, não importa o que a lei diga, para os fiéis seguidores qualquer punição será sempre uma conspiração. É a negação da realidade, o mesmo fenômeno que se viu em episódios internacionais quando líderes populistas se colocam acima das regras e transformam instituições em inimigos.
Mas se for absolvido, ainda que as evidências sejam claras, o sinal que se emite à sociedade é igualmente grave: a certeza da impunidade. Mais do que isso: a certeza de que novas tentativas de ataque à democracia podem estar no horizonte. Pois se nem o peso das provas é suficiente para responsabilizar, o que impediria novas investidas contra as instituições? A absolvição, nesse caso, não seria um gesto de pacificação, mas um estímulo à reincidência.
Estamos diante de um dilema: a condenação alimentará o discurso da vitimização; a absolvição, a certeza da impunidade. Em ambos os cenários, a democracia é colocada à prova. E o que deveria ser um julgamento jurídico, baseado em fatos e evidências, acaba sequestrado pela guerra política e pela incapacidade de parte da sociedade em aceitar que ninguém está acima da lei.
O Brasil precisa decidir se seguirá o caminho da institucionalidade ou se permitirá que a idolatria política continue corroendo a noção de justiça. A independência que celebramos no 7 de setembro perde sentido quando cidadãos preferem submeter-se ao culto de personalidades em vez de defender o país e suas instituições.
Condenado ou absolvido, Bolsonaro já não é apenas um político em julgamento. Ele é o reflexo de uma sociedade dividida entre a fé cega em líderes e o compromisso com a democracia. A pergunta que fica é: estamos prontos para escolher a democracia, mesmo quando ela contraria nossas paixões?




























