28/03/2019 às 12h31min - Atualizada em 29/03/2019 às 03h42min

Mais da metade das vagas no ensino superior do país não foi preenchida em 2017

Análise realizada pela plataforma Quero Bolsa, com base em dados do Inep de 2017, o mais recente disponível, aponta que a ociosidade ficou em 51,5%, 1,4 ponto percentual abaixo do nível de 2016, mas ainda preocupante

DINO - https://querobolsa.com.br/
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Quero bolsa


Uma combinação explosiva de desemprego e escassez de programas de estímulos tem mantido os estudantes longe do ensino superior brasileiro. Apesar de ter ocorrido um aumento no total de alunos matriculados em 2017, o fato é que há mais alunos em condições de cursar uma faculdade e que não o fazem do que cursando o ensino superior.

Tal realidade mantém a ociosidade no sistema acima dos 50% pelo segundo ano consecutivo. A taxa medida pela plataforma Quero Bolsa, a partir dos dados do Censo da Educação Superior 2017, divulgado pelo Ministério da Educação, ficou em 51,5%, pouco abaixo dos 52.9% registrados em 2016, mas ainda acima de todos os demais anos desta década.

O gráfico abaixo revela como evoluiu a ociosidade desde 2010, ano em que o governo federal iniciou um ostensivo programa de financiamento estudantil, que se mostrou insustentável economicamente e maléfico socialmente, devido à criação de uma geração de profissionais recém formados endividados e sem condições de ingressar no mercado de trabalho, seja pelos efeitos da crise econômica que se prolonga sobre a geração de emprego, seja pela incapacidade dos novos formados competirem pelas escassas vagas no mercado de trabalho.

Podemos afirmar que, durante os anos de Fies farto e concessão de crédito indiscriminada, as instituições de ensino superior verificaram uma queda na ociosidade ao mesmo tempo que expandiram a oferta de vagas, na expectativa de atender a um volume cada vez maior de alunos. O mínimo foi registrado em 2014, ano em que o governo federal ofertou 732 mil contratos de financiamento, quase 10 vezes mais do que em 2010. A partir de 2015, com os cortes de verbas para o Fies e o crescimento do desemprego, principalmente entre os jovens, a ociosidade deu um salto. Em apenas dois anos foi de 40,7% para 52,9%, alta de 12,2 pontos percentuais. Foram necessários quatro anos de forte oferta de financiamento e taxa de desemprego baixa para haver um recuo de 8,4 pontos percentuais.

Diante da elevada ociosidade, as instituições de ensino vêm realizando ajustes na oferta de vagas e fechamento de cursos, mas ainda assim a redução do volume de vagas ociosas foi tímido.

Onde sobram vagas

Como é de se esperar, a ociosidade concentra-se nas instituições de ensino privadas devido ao fator custo para o aluno, ou seja, a cobrança de mensalidade em oposição ao ensino gratuito disponível nas instituições de ensino públicas. Além disso, a rede privada concentra 3 em cada 4 alunos matriculados no ensino superior, o que faz com que o volume de vagas também seja proporcionalmente maior. Uma característica inerente ao ensino superior privado gerido por grupos com fins lucrativos é manter uma taxa natural de ociosidade, que deve girar em torno de 25% das vagas oferecidas. Tal número permite ajustar-se à demanda de cada curso, absorvendo novos interessados e gerenciando as vagas excedentes, porém, como fica absolutamente claro, as instituições de ensino privadas têm operado com índices de ociosidade muito maiores do que os aceitáveis.

O gráfico a seguir mostra a distribuição da ociosidade por perfil administrativo das instituições. O maior volume de vagas não preenchidas está nas instituições com fins lucrativos, onde a ociosidade chegou em 2017 em 59,6%. Apesar de alta, houve um leve recuo na comparação com 2016, ano em que o índice registrado foi de 61,3%. As instituições sem fins lucrativos também registraram movimentos semelhantes, com a ociosidade recuando de 56,9% para 55,%.

Na rede pública, a ociosidade geral não é problema. Ela se mantém praticamente estável na comparação com o ano passado. As instituições federais continuam registrando a menor taxa de vagas não preenchidas, com 7,5% de ociosidade (7,6% em 2016). As públicas estaduais tem taxa de 13% em 2017 (12,8% no ano anterior).

Por estado houve uma troca de posições entre os que registram maior número de vagas não preenchidas. Rio de Janeiro e São Paulo, que figuravam no topo do ranking em 2016, reorganizaram as ofertas de novas vagas e cursos e agora estão na oitava e sétima posições, respectivamente. Por outro lado, o Distrito Federal registrou crescimento e ultrapassou a Bahia que teve uma leve retração no índice na comparação com 2016. A surpresa é Sergipe, que no ano passado apresentava ociosidade de 47,5%, saltando de 14º para 2º colocado no ranking. Os motivos para esse aumento precisam ser melhor investigados.

Entre os cursos, Medicina continua como o menos ocioso, fechando 2017 com ocupação total das vagas oferecidas. Estatística e Agroecologia (cursos de pouca demanda) aparecem com poucas vagas não preenchidas. Direito, curso com maior número de alunos matriculados no país é o quarto colocado no ranking dos menos ociosos.

Já entre os mais ociosos, permanecem os cursos voltados para o setor de energia, notadamente petróleo e gás. Algo que já havia aparecido na avaliação realizada em 2016.

Por sua vez, os cursos destinados a formação de professores apresentam grande variação na ociosidade das vagas oferecidas para ingresso em 2017. Física e Química, cursos com baixíssima demanda e concentrados nas instituições públicas, apresentam ociosidade bem abaixo da média brasileira. Na outra ponta estão Educação Física e Letras. Já Pedagogia, curso de licenciatura com maior quantidade de alunos matriculados no país, tem ociosidade de 55,3%.

Para o diretor de inteligência educacional da plataforma Quero Bolsa, Pedro Balerine, os números estão em linha com as expectativas. "Uma ociosidade acima de 50% é muito ruim para as instituições de ensino, pois deixa claro que houve um descasamento entre oferta de cursos e demanda por parte dos alunos. O movimento natural é que as instituições de ensino revisem seu portfólio de cursos, pois não é sustentável manter uma estrutura inchada. A leve queda ocorrida em 2017 mostra que esses ajustes foram feitos e mantém a perspectiva de que em 2018 e 2019 os ajustes continuem a ocorrer. O fato é que este movimento de correção é gradual e ainda vai acompanhar o setor por algum tempo", explica Balerini.



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