Vivemos tempos em que o debate jurídico deixou de ser pautado apenas pelo respeito à lei, à prova e ao devido processo legal, para se transformar em uma disputa de torcidas organizadas. Muitos não se preocupam em compreender os fatos ou as razões de uma decisão judicial; o que realmente importa é se o resultado beneficia “o meu lado”. Se é conveniente, o Judiciário é exaltado como guardião da democracia. Se contraria interesses, é imediatamente atacado como ilegítimo, parcial ou até mesmo “corrupto”.
Essa postura é perigosa. A justiça não pode ser reduzida a uma espécie de campeonato em que só importa vencer. Ao contrário do futebol, em que a paixão permite exageros e parcialidade, o sistema de justiça exige serenidade, equilíbrio e racionalidade. Uma decisão judicial não deve ser analisada pela conveniência política ou ideológica, mas pela solidez das provas, pela coerência jurídica e pelo respeito às garantias constitucionais.
O fenômeno do clubismo jurídico tem crescido no Brasil. Torce-se por pessoas e partidos, e não pelo Estado de Direito. Desconsidera-se a prova, a lei e até mesmo a lógica, desde que a decisão favoreça o “time” de preferência. Isso esvazia o verdadeiro sentido da justiça e transforma juízes em meros personagens de disputa política.
É preciso lembrar: decisões judiciais podem e devem ser questionadas, mas dentro das vias institucionais, por meio de recursos, revisões e debates técnicos. A crítica é legítima e saudável, desde que se paute em fundamentos, não em paixões. Quando escolhemos acreditar apenas no que nos convém, desvalorizamos o Judiciário e, em última análise, minamos as próprias bases da democracia.
A justiça não é um jogo de soma zero. Nem sempre haverá vencedores absolutos. Muitas vezes, a vitória é relativa, pois uma decisão pode frustrar expectativas, mas ainda assim preservar direitos fundamentais. O verdadeiro desafio é compreender que a imparcialidade da justiça não se mede pelo resultado que agrada, mas pela integridade do processo que levou à decisão.
Se continuarmos a tratar o Judiciário como um campo de batalha de paixões, corremos o risco de corroer a credibilidade da única instância capaz de mediar, com autoridade legítima, os conflitos que nos dividem. Justiça não pode ser encarada como conveniência. Justiça é, antes de tudo, compromisso com a verdade e com a lei.





























