A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou tratamento excepcional ao empresário Daniel Vorcaro dentro da Penitenciária Federal de Brasília, expõe de forma quase didática um dos maiores vícios estruturais do Estado brasileiro. Quando se trata de gente poderosa, as regras começam a ficar maleáveis. O sistema penitenciário federal foi criado para impor disciplina rígida e impedir articulações externas. Porém bastou um empresário influente ser preso para que esse rigor começasse a ser relativizado com uma velocidade que o cidadão comum raramente vê quando precisa do Estado.
A reação da Secretaria Nacional de Políticas Penais e da Polícia Penal Federal foi clara. Técnicos e servidores que conhecem o funcionamento real das penitenciárias federais alertaram que o monitoramento das visitas não é um capricho burocrático. Trata-se de um mecanismo de segurança construído ao longo de anos justamente para impedir que presos consigam operar esquemas de dentro da cadeia. Ignorar esse alerta não demonstra sensibilidade institucional. Demonstra um distanciamento preocupante da realidade vivida por quem trabalha na linha de frente da segurança pública.
Os advogados de Daniel Vorcaro, incluindo Roberto Podval, afirmam que a comunicação reservada com a defesa é um direito básico. Isso é verdade. Mas o problema não está no princípio jurídico. O problema está na seletividade prática que parece surgir sempre que personagens influentes entram em cena. O Brasil convive há décadas com um sistema penal duríssimo para os pobres e extraordinariamente flexível quando envolve figuras de poder econômico ou político.
O que torna a situação ainda mais constrangedora é o histórico do próprio André Mendonça. Como ex-ministro da Justiça, ele conhece perfeitamente a lógica de segurança que sustenta o sistema penitenciário federal. Portanto não há como alegar ingenuidade ou desconhecimento. Quando alguém que conhece o sistema decide contrariar seus próprios fundamentos técnicos, a sociedade tem todo o direito de questionar quais interesses e quais prioridades estão realmente guiando esse tipo de decisão.
No fim das contas o episódio deixa uma sensação amarga que o brasileiro conhece bem. O Estado que exige sacrifícios da população para sustentar sua máquina muitas vezes parece incapaz de manter coerência quando confrontado com pressões de poder. Enquanto milhões de cidadãos enfrentam serviços públicos precários, violência crescente e instituições que funcionam mal, decisões como essa reforçam a percepção de que o sistema continua mais preocupado em acomodar privilégios do que em construir um país justo, equilibrado e verdadeiramente comprometido com o interesse coletivo.

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