Se alguém resolvesse avaliar São João da Barra apenas pelos números frios do PIB per capita divulgados pelo IBGE, provavelmente concluiria que se trata de um paraíso financeiro no interior do estado do Rio de Janeiro. Quase quatrocentos mil reais por habitante. Uma cifra que faria inveja a muitas capitais brasileiras e até a cidades europeias.
Mas a realidade, sempre ela, insiste em atrapalhar a propaganda implícita desses números grandiosos. De acordo com dados do Ministério da Cidadania citados na reportagem do jornalista Ralfe Reis, publicada no portal Tribuna NF, cerca de setenta e dois por cento da população da cidade está inscrita no Cadastro Único. Ou seja, na prática, a maioria dos moradores vive em situação de vulnerabilidade econômica.
É uma combinação que merece entrar para o museu nacional das contradições brasileiras. Uma cidade com indicadores dignos de potência econômica e, ao mesmo tempo, com a população majoritariamente dependente de políticas sociais. Algo digno de um estudo profundo em economia política ou de um roteiro de comédia ácida sobre gestão pública.
No centro desse espetáculo estatístico está o Porto do Açu, instalado em São João da Barra. Um colosso industrial que movimenta bilhões em investimentos, energia, logística e infraestrutura. O porto cresce, as cifras impressionam, os relatórios econômicos ficam cada vez mais robustos. Enquanto isso, a vida cotidiana de boa parte da população continua presa a indicadores de pobreza.
A ironia é quase didática. A riqueza passa pela cidade em caminhões, navios e contratos milionários, mas aparentemente desenvolveu uma curiosa habilidade de não parar para visitar a casa da maioria dos moradores. É como um desfile de luxo que atravessa a avenida principal enquanto a plateia continua tentando pagar o almoço.
Nenhuma economia madura consideraria normal um território produzir tamanha riqueza sem que isso se converta em melhoria substancial das condições de vida da população local. Quando essa discrepância persiste, o problema raramente está nos números do PIB. O problema costuma morar nas escolhas políticas, na gestão pública e na forma como o poder decide distribuir oportunidades.
Por isso, a matéria publicada por Ralfe Reis em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, provoca um incômodo legítimo. Ela desmonta a ilusão confortável de que desenvolvimento econômico, por si só, resolve desigualdades sociais. Na prática, São João da Barra parece ter se tornado um curioso laboratório brasileiro onde bilhões circulam ao redor, enquanto a prosperidade observa a população de longe, talvez com certa timidez. Ou talvez com uma indiferença bastante bem organizada.
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