Familiares de Carlito Nolasco, um dos mais antigos e importantes guardiões da memória do Quilombo de Lagoa Fea, em Campos dos Goytacazes, iniciaram uma mobilização por doações de sangue enquanto ele aguarda procedimento cirúrgico após sofrer uma fratura no fêmur.
Segundo relato da família, Carlito está hospitalizado há cerca de duas semanas. Ele permaneceu inicialmente por dois dias no Hospital Ferreira Machado e, posteriormente, foi transferido para a Beneficência Portuguesa, onde segue internado.
A família pede que doadores de qualquer tipo sanguíneo procurem o Hemocentro Regional de Campos, anexo ao Hospital Ferreira Machado, e informem o nome de Carlito Nolasco no momento da doação.
Hemocentro segue precisando de doadores
A mobilização ocorre em um período de atenção para os estoques do Hemocentro Regional de Campos. Em agosto, a unidade chegou a registrar nível crítico, com menos de 20 doadores por dia diante de uma meta de aproximadamente 70 bolsas. No fim daquele mês, houve melhora, mas o Hemocentro ainda apontava dificuldade principalmente nos estoques de sangue com fator RH negativo.
O Hemocentro Regional funciona todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados, das 7h às 18h, na Rua Rocha Leão, nº 2, no Caju, anexo ao Hospital Ferreira Machado. A informação foi novamente confirmada pela Fundação Municipal de Saúde neste mês de setembro.
Para doar, é necessário apresentar documento oficial com foto, estar em boas condições de saúde, pesar mais de 50 kg e ter entre 16 e 69 anos. Não é necessário estar em jejum.
SERVIÇO — DOAÇÃO DE SANGUE
Em nome de: Carlito Nolasco
Tipo sanguíneo: qualquer tipo
Local: Hemocentro Regional de Campos — Hospital Ferreira Machado
Endereço: Rua Rocha Leão, nº 2, Caju
Horário: diariamente, das 7h às 18h
Guardião da memória de Lagoa Fea
Carlito é reconhecido como um dos griôs de Lagoa Fea — denominação dada aos mais velhos que preservam e transmitem oralmente histórias, conhecimentos e memórias de uma comunidade.
Em 2022, quando tinha 90 anos, ele esteve entre os moradores mais antigos escolhidos pelas comunidades quilombolas de Campos para participar do documentário “Griôs: Histórias que os livros não contam — Memórias vivas dos sete quilombos de Campos dos Goytacazes/RJ”. Na produção, Carlito compartilhou lembranças da ligação histórica entre Lagoa Fea e o Quilombo de Machadinha, em Quissamã.
A importância de Carlito para a memória da comunidade também aparece em uma dissertação desenvolvida na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) sobre identidade e memória no Quilombo de Lagoa Fea. A pesquisa registra que publicações com histórias de Carlito despertavam lembranças até entre antigos moradores que deixaram a comunidade décadas atrás, mostrando seu papel como uma referência coletiva para diferentes gerações.
O trabalho acadêmico também recupera uma publicação do humorista e ator Hélio de La Peña, parente de Carlito. No relato, La Peña afirma que Carlito é primo direto de sua avó e o descreve como o mais antigo remanescente daquela parte da família. Ao longo da vida, Carlito trabalhou na roça, na Light, no cais do Porto do Rio de Janeiro e na Rede Ferroviária, além de ter sido jogador amador. Segundo a lembrança de La Peña, Carlito chegou até a enfrentar Garrincha em campo.
A própria história de Lagoa Fea ajuda a dimensionar a relevância dessas memórias. A comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 2017. Pesquisas sobre o território apontam a Lagoa Feia como antiga rota utilizada por escravizados que fugiam da Fazenda Machadinha, em Quissamã, em direção à região onde se consolidou a comunidade.






























