O Brasil acaba de escrever mais um capítulo triste de sua história política: a condenação de um ex-presidente da República por tentativa de golpe de Estado.
A vergonha não está apenas no ato em si — a tentativa de rasgar a Constituição para impor um projeto autoritário — mas também no fato de que esse personagem sempre deixou claro, ao longo de sua trajetória, qual era o seu verdadeiro objetivo: transformar a democracia em ditadura.
Não foi por falta de aviso. Desde os tempos de deputado, Bolsonaro nunca escondeu sua admiração por ditadores, seu desprezo pelo Estado de Direito e sua obsessão pelo autoritarismo.
Declarava abertamente que o voto não mudaria nada no país e que “só uma guerra civil” resolveria. Disse que “fecharia o Congresso” se pudesse, exaltava torturadores e pregava o ódio como forma de governo. E, mesmo assim, uma parte significativa da população brasileira o levou ao poder pelo voto.
A incoerência é gritante: como pode uma sociedade democrática, que sofreu por duas décadas sob um regime militar, entregar voluntariamente as chaves do Palácio do Planalto a alguém que nunca disfarçou seu desprezo pela própria democracia?
O resultado está diante de nós. O ex-presidente, já condenado, entra para a história não como estadista, mas como réu. A tentativa frustrada de golpe não foi um acidente de percurso — foi a materialização daquilo que ele sempre anunciou. Quem o apoiou não pode alegar surpresa. A democracia brasileira não caiu porque resistiu, mas ficou abalada e fragilizada.
Resta a reflexão incômoda: até que ponto a ignorância política, a paixão cega ou o fanatismo justificam escolhas que colocam em risco o futuro de uma nação? Votar em quem declara que quer ser ditador é o mesmo que entregar a faca a quem ameaça usá-la.
A condenação é necessária, mas não basta. O que precisa ser condenado também é a amnésia coletiva, o conformismo com discursos de ódio e a incapacidade de parte da sociedade em enxergar as consequências de suas escolhas.
Porque um presidente condenado por tentar destruir a democracia é, no fim das contas, um retrato cruel de nós mesmos.




























